Coluna Paulo Ramos Derengoski 30/06/2020

A Região mais Fresca do Brasil

Ainda é verão? Alto verão? Trinta e nove graus à sombra no litoral. Cinquenta e um graus nas arcias escaldantes dos desertos tumultuários do Iraque...

Mas no verdejante planalto sul de Santa Catarina, nos campos de Lages, nas serras de São Joaquim, Urupema e Urubici a temperatura é sempre amena e agradável, com dias ensolarados e noite frescas. É que o fator altitude - cerca de mil metros acima do nível do mar - se une à latitude sul para dar uma média de vinte e dois graus centígrados.

Claro que no verão todo mundo quer ir à praia badalar: águas azuis-regata, louras geladas, colírios para os olhos. Tem até quem prefira tomar chimarrão na praia, talvez para mostrar que é gaudério. Só faltam ir de bombacha e alpargata-roda. Diz o ditado serrano "quanto mais larga a bombacha menor o fazendeiro..."

Enfim: quem estiver cansado de fila no chuveiro, supermercado, banco, posto de gasolina, bar, sorvete, e falta d´água pode subir a serra e vir respirar o arzinho leve e fino do planalto. A viagem é linda. Tanto para o turista que vier pela BR-470, dando uma passadinha em Blumenau para comprar uns panos, como pela esburacada BR-282. Ou melhor ainda: pela Serra do Rio do Rastro, a nossa Macchu Picchu.

O planalto tem hoje um bom turismo rural, com fazendas que hospedam com dignidade e honestidade, os campos de coxilhas que cercam Lages são de uma capim-mimoso verde-abacate, onde afloram lajes de pedras brancas e emergem, como príncipes dos abismos, os pinheiros brasileiros, araucárias pré-históricas.

Se tiver sorte e máquina fotográfica com zoom, o turista pode flagrar a galha azul que é a ave que espalha o pinhão. De fato, ela não "planta" a semente, pois não consegue cavoucar, fazer buraco. Ao voar, ela derruba os pinhões, semeando-os. Quem enterra o pinhão é o serelepe, o nosso esquilinho.

Está comprovado que o pinheiro brasileiro é uma das formas de vida vegetal mais antigas da face da Terra. Ele gosta de altitudes e de frio e se projeta das alturas nas serras, nas canhadas, nos Itambés, nos vales. Magnífico. Altaneiro. Seus enormes galhos desnudos balançam ao vento em circunvoluções verde azuladas que lembram a dança louca da mandala dos índios. Talvez ele seja o marco de civilizações desaparecidas, rastros pontiagudos de gurus, xamãs e deuses bifrontes que no passado andaram pelas serras, transformando a região num Ponto de Chakra.

Sua semente miraculosa- o pinhão - se debulha sobre o chão, servindo de alimento no inverno gelado do Planalto a homens e animais. E quem se dispuser a abraçar o pinheiro durante algum tempo, receberá energia cósmica que vem da terra. Como a araucária hoje não tem valor econômico- e no futuro nada que não tenha valor econômico poderá sobreviver- só o manejo sustentável cientifico poderá salva-lo. A não ser a humanidade desapareça em guerras e pandemias como um deserto nas areias do deserto.

E o pinheiro brasileiro reste como testemunho patético de um tempo que não volta mais!



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