Audiência da Tração Animal ouve carroceiros e aponta regulamentação como alternativa para coibir maus-tratos

Esta reunião contribui para os dois lados, tanto o bem-estar animal, como a condição de vida dos carroceiros

Foto: Fotos: Eduarda de Liz (Tração Animal) / Aline Borba (CPI)

O Plenário Nereu Ramos da Câmara de Lages recebeu na noite da última quarta-feira (13), autoridades e pessoas da comunidade que expuseram suas opiniões sobre o projeto que prevê a proibição da tração animal no meio urbano do município. Consenso entre todos que se expressaram, a necessidade de uma regulamentação e de maior fiscalização, foi o ponto mais citado no encontro, com uma subsequente punição aos proprietários que maltratam os animais utilizados na tração da coleta do lixo reciclável. 

Proponente da audiência, o vereador Bruno Hartmann (PSDB) ressaltou o caráter informativo e universal da audiência, já que se ouviram os diversos lados interessados na questão, mas especialmente o fato de oportunizar a expressão dos próprios carroceiros. "Esta reunião contribui para os dois lados, tanto o bem-estar animal, como a condição de vida dos carroceiros. (...) Foi um momento de muita sabedoria para todos nós, que certamente vai pontuar a futura regulamentação que apresentaremos para a área", destacou.

Em nome dos demais legisladores, Maurício Batalha Machado (PPS) sugeriu uma fiscalização aos moldes das vistorias de veículos automotores, pela qual, de tempos em tempos, os carroceiros passem pelo CAV para obter uma licença para o trabalho, mediante a inspeção do animal, e de uma regulamentação que mostre o que pode e o que não pode ser feito. Também sugeriu uma sessão solene da Câmara em homenagem ao projeto Amigo do Carroceiro.

Projeto Amigo do Carroceiro, do CAV, presta importante auxílio aos profissionais da área

Coordenador do Amigo do Carroceiro, promovido pelo Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) e apoiada pela Prefeitura e o Ministério Público, o professor-doutor Joandes Henrique Fonteque explicou que o projeto possui mais de 500 profissionais cadastrados. Além do atendimento médico, cirúrgico e específico do animal (como o ferramento, alimentação, etc), o Amigo do Carroceiro tem um caráter social de atendimentos às famílias, com a distribuição de alimentos, roupas, calçados, bem como atividades de lazer e entretenimento. Ao longo dos 17 anos de atividades, somente dois carroceiros cadastrados foram denunciados por maus-tratos aos animais, o que evidência a qualidade do serviço prestado pelo projeto.

Responsável pelo atendimento aos animais maltratados encaminhados ao CAV, Fonteque se mostrou contrário à proibição. "Já existe uma lei para a punição e qualquer pessoa pode denunciar. Uma lei punitiva não vai resolver, o que precisa fazer é educar o carroceiro e o CAV está aqui para isso", disse. O professor explica que várias pessoas que trabalham neste ofício são de meia-idade ou mais avançada, com problemas físicos e/ou cardíacos, os quais não podem usar a própria força, mas sim a do animal. "O carroceiro é fruto de um problema social, uma parcela desfavorecida economicamente, então o que precisa é incentivá-los como agente social na transformação e melhoria da sociedade", argumentou.

Sobre o projeto em si, Joandes Fonteque explica que ele pode ser aprimorado com um apoio financeiro maior do poder público e da iniciativa privada. "Nossa opinião é regulamentar e, se possível, que todos que possuem um animal no meio urbano possam se cadastrar no projeto, independente de ser carroceiro ou não", disse. Ele ressaltou também o benefício que a própria instituição recebe com o projeto. Segundo ele, são 40 acadêmicos voluntários todos os semestres, mais de 700 alunos ao longo da atividade do projeto, que adquirem a responsabilidade social de ajudar alguém que precisa do conhecimento dele.

Diretora do Meio Ambiente da Prefeitura, Silvia Oliveira evidenciou a dignidade do trabalho dos carroceiros e ressaltou a necessidade de uma regulamentação que valorize este profissional, além de apresentar diretrizes para a conscientização da comunidade lageana para a separação correta do lixo produzido em cada residência, comércio e empresa da cidade. "Precisamos de um trabalho forte em prol da valorização do lixo, porque ele é produto, renda, tem valor econômico e social. (...) Nossa cidade tem condição de fazer isso, é um trabalho que passa pela educação do nosso povo, de uma mudança de comportamento", afirmou Silvia, que destacou ainda que Lages foi contemplada com recursos federais, para ampliar o projeto de compostagem desenvolvido por acadêmicos do CAV nas instituições de ensino e nas comunidades do entorno destas.

Carroceiros são orgulhosos de seu trabalho e pedem fiscalização e punição a quem maltrata os animais

 O Legislativo Lageano também ouviu quem trabalha diretamente neste ofício. Há cinco anos vivendo de reciclado no município, embora utilizando a gaiota, Guilherme de Souza disse que se todo carroceiro der o farelo, o trato, a ferradura, água, ter espaço para o animal e um lugar apropriado pela abrigá-lo do mau-tempo, não há motivo para proibição. "Problema é que tem gente que só pensa em explorar, acha que o cavalo é máquina. Esse precisa ser punido", diz. Ele se mostrou agradecido pelo trabalho que desenvolve. "Tudo que tenho na minha casa é graças à gaiota", afirma. Ele também fez uma reclamação para com a população lageana mais abastada: "O que tá no lixo é renda pra nós, mas tem muita gente que não separa certinho, principalmente no Centro. Joga lixo de banheiro, o da cozinha, junto com o reciclável, é preciso consciência para fazer o que é certo".

Há 25 anos trabalhando com reciclados, Jair Roberto Schetz se diz orgulhoso por ser, há 12 anos, um microempreendedor registrado no Sebrae. Ele próprio desenvolveu um veículo que utiliza na coleta do material com um motor de roçadeira. "O custo da minha máquina é mais baixo que o de um cavalo, é R$ 250 para manutenção a cada seis meses, R$ 150 de gasolina por mês, não precisa de campo, nem de sustento ao animal", apresentou Schetz como uma alternativa ao uso do trabalho animal. Sobre a tração, ele acredita que a Prefeitura deveria obrigar todos que utilizam este meio de vida a se cadastrar no projeto Amigo do Carroceiro. "O Meio Ambiente pega os cavalos com maus tratos, mas é a pessoa que faz o animal puxar mais, então tem que ter fiscalizar. (...) Se pegar o animal em maltrato, não deixa sair", recomenda.

Donos de animais, o casal Dejanir e Valdir fez uma emocionada defesa de seu ofício e dos cavalos que utilizam para o trabalho. "Faz nove anos que trabalho com carreta e, se for preciso, fico sem comer para dar de tratar a minha égua. Tenho quatro filhos, uma irmã que mora comigo e só sobrevivemos de reciclado. Tenho minha égua, vaca, uns 12 cachorros, eu tenho amor nos bichos. Agora não é por causa de um que todos vão pagar", argumenta Dejanir, que expôs ainda que o trabalho com reciclados a tirou da depressão. Valdir defendeu que não é o trabalho dos carroceiros que faz mal aos animais. "Laçada sim é uma judiaria. Mas se está em cima de um cavalo, o povo acha bonito. É ali que o cavalo sofre, por uma diversão da pessoa. Agora vai ver no meu terreno se o bicho sofre, porque nós damos conta de cuidar, ferrar, medicar e der o que ele precisa, ele só vai dar benefício ali na frente. Deixo o apelo para que pensem com carinho, que os vereadores ajudem e abrace a causa do necessitado".

Carreteiro por mais de dez anos antes de virar empresário, o vereador Pedro Figueredo (PSD) se colocou ao lado dos trabalhadores para o que eles precisarem. "É uma tradição de 50, 60 anos em Lages, quem trabalha e trabalhou nisso tem orgulho, ainda hoje tenho guardada minha carreta na minha chácara. Sou a favor da bandeira dos carreteiros, mas sou contra o maltrato, o bicho sente a dor como nós mesmos sentimos. (...) Sou vereador de bairro e vou lutar por essa causa. Quem precisar, o gabinete está de portas abertas e estou aqui para ajudar", externou o edil.

CPI do Tito Bianchini realizou a segunda fase das oitivas

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Câmara de Lages para investigar o atendimento no Pronto Atendimento Tito Bianchini realizou no dia 14 de março a sessão fase das oitivas públicas no qual foi ouvido o depoimento de três usuários do sistema e de uma servidora do PA.

Segundo o presidente da CPI, vereador Mauricio Batalha Machado (PPS), várias questões ficaram mais esclarecidas com os depoimentos, além disso, as pessoas ouvidas trouxeram documentos que podem contribuir para o relatório final, emitido pela comissão ao fim dos trabalhos. Com cerca de um mês e meio de atividades já desenvolvidas, a CPI tem um prazo de 120 dias, podendo ser prorrogada por mais 60.

Nesta semana, a comissão deve se reunir novamente para analisar o conteúdo dos depoimentos já feitos e dos documentos obtidos para dar seguimento ao trabalho, os quais, além de relatórios de atendimento do PA, também abrangem dados documentais do hospital Tereza Ramos e da regional de Saúde.






Textos: Everton Gregório

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