Fragmentos de uma cidade que não existe mais

As crianças ficavam em frente da vitrine do Bazar Danúbio com o mesmo brilho no olhar com que cobiçavam os doces da Confeitaria das Famílias

Foto: Arquivo e Reprodução Museu Thiago de Castro

O passado é uma névoa que vai se desmanchando lentamente. Muitos personagens e lugares desapareceram na poeira do tempo. A vida é transitória. Lembrar se impõe como forma de resistência ao esquecimento.

As crianças ficavam em frente da vitrine do Bazar Danúbio com o mesmo brilho no olhar com que cobiçavam os doces da Confeitaria das Famílias.

Assistir as partidas de basquete no sábado, ir à matinê de domingo no Cine Tamoio, emprestar livros na Biblioteca Pública, aulas no Centro Educacional, comprar bilhetes da rifa na festa da Igreja da Santa Cruz, ir ao Festival de Teatro de Lages (FETEL), sonhar com amores que jamais olharam para o nosso rosto. Tudo era mistério e tudo era bom.

No salão de sinuca do Clube 14, o De Carli conseguia controlar a "jeunesse dorée" da época, todos tratados com o carinho adequado à futura elite econômica da cidade. Divididos entre partidas de pebolim e "vida", ensurdeciam o mundo com palavrões e ameaças de brigas. No andar de cima, Orimar Gentil Demeneck, a gentileza em pessoa, servia doses generosas de uísque falsificado para a turma do João Saldanha (leia-se Esporte Clube Internacional).

Em que mundos paralelos estão perdidos o Rei do Frango, o Marroquinhos, o Gaitaço, o Bolicho, o Gato de Botas, o Boemia, o Caravelle, o Lennon's, o Kalash, o Maria Maria, o Five O'clock, a Casa do Suco? O som da sirene da Rádio Clube serve de lembranças para tardes e noites no Aeroclube, no Portuga's, no Sentinela, no Porteira Serrano, no 25 ou talvez, naqueles tempos de carência, quando não se podia dizer que dessa água não beberei, no Gato Preto ou na Boate do Mário.

No King's Sauna reinava Waltrick, um cabeleireiro com ares intelectuais, que lia Laranja Mecânica e Adelaide Carraro com a mesma curiosidade.

Como esquecer as noites intermináveis no Cisne Branco quando, fugindo do terceirão do Colégio Diocesano, alguns alunos preferiam ter "aulas" com o pessoal mais velho: Athos Athayde, Rogério Castro, Wilson Vidal Antunes Júnior, entre outros? A cerveja, sempre gelada, envolvia tudo e todos, dando um colorido que nunca mais se repetiu.

Algumas coisas se apresentam como surpresa. Talvez seja essa a maneira mais fácil de explicar a passagem meteórica do Alencar (Pizzaria PX) por Lages. Um anjo da guarda muito desajeitado e que nunca economizou afeto.

Almoços de sexta-feira na Churrascaria Joia (antiga rodoviária). Uma vitrola antiga, discos de vinil, musica caipira, volume acima do suportável.

Poucos conseguem esquecer o Jader Rocha, na porta do Café Ouro, cigarro na mão, pose de astro do cinema francês. Enquanto isso, os fregueses do almoço, servidos pelo Gilmar (que, mais tarde, se transformou em radialista), devoravam enormes coxas de frango. Nesse mesmo balcão, em um fim de tarde, sem saber o que fazer da vida, Pedro Leite e Itamar Garcez, jornalistas do Diário Catarinense, olhavam para o nada, mortos de saudades de uma Porto Alegre que, a cada minuto, se tornava mais distante.

 Em momento impreciso, no Lanchik, lugar onde todos iam comer "sanduíche americano" e beber a sempre eterna pilsen da Antarctica, apareceu Henrique Belling, vindo de São Paulo ou de Nova Iorque, ou de algum outro paraíso exótico, e ergueu do solo todo mundo num abraço interminável, uma ternura que poucas vezes a província conseguiu sentir.

As vozes de Ademir e Toni, cantando boleros, ecoava nas noites da Cantina Del Nonno - destino inevitável em algumas noites em que a fome se manifestava de forma incontrolável.

Zezé (José Carlos Suzin) costumava caminhar pelo calçadão. Leitor do Pasquim, sempre tinha uma história para contar, saudoso de um Rio de Janeiro mítico e que não existe mais.

Elionir Martins de Liz irradiava o poder agregador. Foram inúmeras as vernissages em que reuniu Nelson Di Córdova, Márcio Camargo Costa, Adilson Guanabara, Gilca Maria Silva, Nereu de Lima Goss, Katia Volkert e Clênio Souza em conversas regadas a vinho de garrafão e queijo colonial.

Francisco (Chico) de Assis e Estevam Borges, jornalistas que transcenderam o tempo e o espaço, se tornaram mestres de uma geração.

Falta alguém para narrar essas confusões. É material para um romance. Ou dois.

Texto: Raul Arruda Filho


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